Brincando de Indiana Jones Hi-Tech

9 de janeiro de 2011 0 comentários
Internautas usam GPS para decifrar coordenadas deixadas na rede e encontrar prêmios escondidos em vários países – até no Brasil


A viagem de lua-de-mel pela Europa do casal paulistano Alexandre Vecchio e Petra Ruocco, ele um consultor de empresas de 34 anos, ela uma fisioterapeuta de 29, teve passeios turísticos e programas românticos. Mas não foi só. Boa parte do tempo os dois dedicaram a uma espécie de caça ao tesouro. Em Atenas, na Grécia, tão interessados quanto conhecer o Pathernon, o principal templo da cidade, eles estavam em encontrar um certo banco de praça. Segundo o aparelho de GPS (sigla em inglês para Sistema de Posicionamento Global) que carregavam, o banco ficava em uma avenida do centro. Depois de muita andança, os recém-casados acharam o que procuravam: colado sob o tal banco, um tubinho de filme fotográfico de 35 milímetros guardava um punhado de moedas antigas. Pegaram apenas uma, que substituíram por outra de R$ 1, nova, mais uma bandeirinha do Brasil.

Os dois se divertiam com uma nova brincadeira de aventura chamada Geocaching, versão atualizada e tecnológica da velha caça ao tesouro, que virou mania entre usuários da internet. 'Já tínhamos planejado a lua-de-mel na Europa quando pensamos: 'Por que não levar o GPS e incluir no roteiro algumas buscas?'', conta Vecchio. 'É bom viver esse flashback, voltar a ser criança', diz Petra.

Hoje existem, abertas a qualquer pessoa interessada em entrar no jogo, inúmeras comunidades online (confira lista no nosso site) para a troca de coordenadas - latitude e longitude, que são localizadas com ajuda de um GPS (veja quadro com os mais novos modelos) -, além de dicas ou charadas para encontrar os caches, os esconderijos. Na mais antiga, a Geocaching.com, há mais de 250 mil 'tesouros' registrados, escondidos em diversos países. O movimento é tão forte lá fora que recentemente surgiram empresas especializadas em fabricar moedas para serem deixadas de lembrança junto com o livro de registros, que todo esconderijo possui para imortalizar quem passou por ali. No Brasil, apesar de haver adeptos desde 2001, a brincadeira ainda engatinha. Segundo pesquisa do site Geocaching Brasil, existem apenas 32 caches ativos em território nacional.

A mania começou em 2000, quando um americano plantou na internet o primeiro cache e suas respectivas coordenadas. Dois dias depois, o 'tesouro' já tinha sido visitado por um internauta. Em geral, o que se encontra não é nada de valor. Podem ser moedas, antigas ou novas, um CD ou um souvenir qualquer. O que importa mesmo é a chance de instigar o espírito de aventura e superar um desafio. 'Quando localizei o primeiro cache tive a sensação de achar realmente um tesouro, como nos desenhos animados', afirma a estudante Érica Costa Campinhos, de 26 anos, que há dois meses embarcou nessa onda por influência do irmão, o técnico de informática Eduardo, de 25 anos.

Em sua primeira 'expedição', no cerrado brasileiro, Eduardo contou com a ajuda de seu grupo de esportes de aventura, o 'Pé na Trilha'. Passaram aperto. 'Fomos despreparados, só com o GPS. No meio do caminho, percebemos que o esconderijo era em uma ilha no meio de um lago', diz. 'Mergulhamos de roupa e tudo, porque desistir não estava nos nossos planos.' Para evitar esse tipo de obstáculo, adeptos experientes aconselham conseguir antes um mapa da região e gastar um tempo reconhecendo o terreno. 'É legal ir de tênis e com roupas confortáveis, levar filtro solar, água e algum lanche na mochila', diz Eduardo.

Há tesouros escondidos tanto em cenários paradisíacos como em grandes centros urbanos. O paulistano Ricardo Serra, de 29 anos, administrador do portal Geocaching Brasil e um dos primeiros 'Indiana Jones' nacionais, fez sua estréia na cidade de São Paulo mesmo. 'Em 2002, estava cadastrado no site americano e saí para procurar o primeiro cache. O GPS apontava para uma rua da zona sul e, lendo as dicas, descobri que estava dentro da caixa de luz de um dos praticantes', conta. 'O mais divertido foi tocar a campainha da casa dele e, conversando, descobrir que tinha feito o cadastro há um ano e ninguém ainda tinha ido procurar.'

No Brasil, muitos tesouros se perdem pelo meio do caminho, pois são encontrados por não-adeptos do jogo e roubados. Assim, não se cumpre uma regra básica, a reposição permanente dos 'prêmios'. Quando se encontra um cache, além de assinar o livro de registros, deve-se deixar outra coisa no lugar. Só assim o próximo aventureiro não dá com a cara na porta.

Para tornar a brincadeira ainda mais emocionante, o site Travel Bug (www.travelbug.com) fornece uma etiqueta de identificação numérica para os caches. Com esse recurso, quem encontra um tesouro pode levá-lo para outro lugar. Depois, deve entrar no site, digitar o número, dizer onde achou e onde deixou o prêmio. Assim, todo mundo consegue acompanhar seu itinerário. Em um dos caches que procuraram e acharam enquanto viajavam pela Europa, no ano passado - dessa vez em Roma, ao lado das ruínas do Coliseu -, o consultor Vecchio e a fisioterapeuta Petra encontraram uma etiqueta numerada. Um dia depois, deixaram o prêmio em outra cidade, Murano. Quando acessaram o site, descobriram que o 'tesouro romano' também já não estava mais em Murano. Tinha passado pela Espanha e andava pelo Reino Unido.

Durante as três semanas da lua-de-mel, o casal colecionou dez conquistas e dois fracassos, ambos na Grécia, na ilha de Santorini. Um estava no alto de uma colina e, segundo o casal, faltou perna para alcançar o objetivo. O outro estava em um parque. 'Passamos dois dias rodando lá dentro e não achamos nada', conta Petra. 'No segundo, só desistimos porque começou a anoitecer e os guardas vieram atrás de nós, avisando que o lugar já estava fechado.' Mas isso não esmoreceu o espírito Indiana Jones do casal: de volta ao Brasil, eles garantem que a brincadeira continua.


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